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Comprar de pequenos fornecedores de grupos social e economicamente marginalizados pode ser, para uma grande empresa, uma forma de fortalecer a própria cadeia de suprimentos, e não apenas uma ação social. O retorno, porém, depende de acompanhamento contínuo desses parceiros e de indicadores que não se limitem a preço e custo no curto prazo. É o que indica um estudo de caso do Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção (PPGEP) da UFSCar, que recebeu três reconhecimentos no 50º Encontro da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração (EnANPAD), realizado de 23 a 25 de setembro na Universidade de Fortaleza (Unifor), no Ceará.
A publicação "Criação e Apropriação de Valor em Compras Inclusivas: um estudo de caso na relação comprador-fornecedor" venceu o prêmio de melhor artigo derivado de tese de doutorado da Divisão de Gestão de Operações e Logística (GOL). Obteve ainda duas menções honrosas: como um dos três melhores trabalhos dessa divisão e como um dos melhores de todo o encontro na temática Principles for Responsible Management Education (PRME), sigla em Inglês para Princípios para Educação em Gestão Responsável.
A tese é de Naiara Calife Garcia, doutoranda do PPGEP e professora da Universidade Federal de Catalão (UFCAT), em Goiás. A orientação é de Andrea Lago da Silva, docente do Departamento de Engenharia de Produção (DEP) da UFSCar, com coorientação de Priscila Laczynski de Souza Miguel, da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV EAESP).
Compras inclusivas consistem na aquisição de produtos ou serviços de fornecedores pertencentes a grupos marginalizados. Essas relações, explica Garcia, são marcadas por forte assimetria de poder. "De um lado, observamos grandes organizações compradoras, com maior disponibilidade de recursos, capacidades e poder de barganha. Do outro lado, pequenos fornecedores que frequentemente enfrentam restrições produtivas, financeiras e dificuldade de acesso ao mercado", descreve.
Segundo a literatura da área, nesses contextos o ator dominante tende a ficar com a maior parcela do valor gerado. O estudo procurou entender o que o lado mais vulnerável efetivamente obtém, por que permanece nessas parcerias e o que leva as compradoras a manter investimentos cujo retorno não é necessariamente financeiro nem imediato. "Percebemos que não bastava perguntar se as compras inclusivas geram benefícios", afirma a doutoranda. Faltava compreender, segundo ela, "como a inclusão é construída e sustentada".
Investimento de longo prazo
A análise mostrou uma dinâmica diferente da esperada. Ainda que em posição desfavorável, os pequenos negócios se apropriaram de valor de forma relativamente antecipada e em várias dimensões: novos conhecimentos e capacidades produtivas, melhorias operacionais, geração e maior estabilidade de renda, diversificação da produção e acesso a mercados antes fora de alcance.
Para a empresa, os benefícios apareceram conforme a base fornecedora evoluiu, na forma de maior previsibilidade do abastecimento, menor risco de ruptura e fortalecimento da reputação. "No caso analisado, o desenvolvimento dos fornecedores é parte do processo por meio do qual o próprio comprador passa a capturar valor", observa Silva.
Esse resultado exigiu esforço continuado. "A inclusão não ocorreu simplesmente pela abertura de uma oportunidade comercial", relata Garcia. A companhia ofereceu capacitação, assistência técnica e acompanhamento da produção, investiu em infraestrutura e adaptou práticas à realidade local. "Esses mecanismos contribuíram para desenvolver fornecedores que, em condições convencionais de mercado, enfrentariam dificuldades para atender às exigências de uma grande organização", completa.
Confiança, reciprocidade e comprometimento, que a tese examina sob a perspectiva das trocas sociais, não eram apenas pré-requisitos: foram construídos em interações recorrentes, o que ajuda a explicar por que os dois lados seguem engajados mesmo quando os resultados demoram.
Silva resume o alcance das compras inclusivas: "Quando estruturadas a partir de uma perspectiva de longo prazo, elas podem constituir um mecanismo de desenvolvimento da cadeia de suprimentos".
Às empresas interessadas em adotar a prática, as autoras indicam que a inclusão precisa ser incorporada à gestão do relacionamento com quem fornece, e não só aos critérios de seleção ou às metas de aquisição. Sugerem também rever a maneira de medir desempenho. "Uma lógica orientada exclusivamente por preço e redução de custos no curto prazo pode não capturar adequadamente o valor gerado pelas compras inclusivas", avalia Garcia. Os indicadores, acrescenta, deveriam considerar ainda a evolução dos parceiros, a estabilidade do fornecimento e os efeitos sociais e ambientais.
Reconhecimento nacional
"Mais do que a premiação em si, esse reconhecimento nos sinaliza a relevância de discutir compras inclusivas, sustentabilidade e geração de valor, dando também visibilidade a atores que nem sempre ocupam posição central nos estudos sobre cadeias de suprimentos", diz Garcia. Silva vê nas distinções "um estímulo para continuar aprofundando a pesquisa".
A orientadora destaca a menção PRME. A iniciativa, lançada em 2007 com apoio da Organização das Nações Unidas (ONU), estimula escolas de Administração a incorporar sustentabilidade, ética e responsabilidade social ao ensino e à pesquisa. "Mesmo estando em uma pós-graduação em Engenharia, conseguimos dialogar com outras áreas afins", comenta.
Para a UFSCar, avaliam as autoras, o resultado evidencia a qualidade da produção científica da Universidade e pode incentivar outros estudantes e pesquisadores a se aproximar do tema. A tese nasceu da interação de Garcia com Miguel, que em 2022 realizou pós-doutorado com Silva, e integra a agenda das duas docentes sobre sustentabilidade e justiça em cadeias de suprimentos agroindustriais, conduzida com colaboradores no Brasil, no Canadá e na França, entre outros países. Os projetos nessa temática contam com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e do Programa Institucional de Internacionalização da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes-PrInt).
"Estou em fase final do doutorado, que tem sido um processo de grande aprendizado e amadurecimento científico. Ter esse trabalho reconhecido pela comunidade acadêmica representa uma validação importante dessa trajetória e, ao mesmo tempo, fortalece a confiança para os próximos passos da minha carreira como docente e pesquisadora junto a minha universidade", afirma Garcia.
"Para nós, orientadoras, é uma enorme satisfação ver o crescimento de estudantes de mestrado e doutorado que se aprofundam em um tema e fazem uma pesquisa de campo extremamente rigorosa e com impacto social", finalizam Silva e Miguel.