Notícia

Agnes Arato - Publicado em 05-08-2026 10:00
Encontro reúne reitores das universidades públicas paulistas
Reitores e comunidade métricas (Foto: Denise Guimarães/Esalq)
Reitores e comunidade métricas (Foto: Denise Guimarães/Esalq)
Texto por Claudia Izique, da Assessoria de Comunicação do III Encontro Comunidade Métricas

O III Encontro da Comunidade Métricas reuniu cerca de 80 pesquisadores e profissionais das áreas de dados de instituições de ensino superior com os seis reitores das universidades públicas de São Paulo - Aluísio Segurado (USP), Raiane Assumpção (Unifesp), Maysa Furlan (Unesp), Ana Beatriz de Oliveira (UFSCar), Paula Homem de Mello (UFABC) e Fernando Coelho ( reitor em exercício da Unicamp) -, na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), em Piracicaba, em 29 de julho. Servidores da UFSCar e colaboradores da FAI UFSCar estiveram presentes ao encontro; clique aqui para ler sobre a participação da universidade.

Estiveram em pauta os principais desafios a serem enfrentados pelas instituições no período 2026-2030, notadamente, o uso de métricas e indicadores na avaliação do impacto das universidades para a sociedade e de inteligência artificial nas atividades de ensino, pesquisa e extensão.

"É preciso entender as necessidades da sociedade e internalizá-las na vida acadêmica", recomendou Vahan Agopyan, secretário de Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado de São Paulo, que, por meio de vídeo, abriu o debate entre os reitores e a plateia. Vahan lembrou que o diálogo com a sociedade mobiliza universidades públicas na Europa e Estados Unidos - "o contribuinte quer saber como o dinheiro está sendo usado" - e que, também no Brasil, é preciso mostrar que as instituições de ensino superior e de pesquisa "são parte da solução". 

Vahan alertou para a necessidade de conferir dinamismo à gestão acadêmica - "submeter decisões administrativas a colegiados formados por mais de 100  pessoas retarda a resposta aos anseios da sociedade" - e sublinhou a urgência de as universidades adequarem as atividades de ensino, pesquisa e extensão ao uso da inteligência artificial. "Vivemos uma nova etapa de mudança e é preciso agilidade nas decisões", afirmou o secretário. 

Indicadores de desempenho e de impacto
Todas as universidades públicas do Estado de São Paulo já se mobilizam para elaborar indicadores de impacto para a sociedade no âmbito de escritórios de gestão de dados. A Universidade de São Paulo (USP) está implantando o Escritório Ciência e Sociedade, ligado ao gabinete do reitor, para dialogar com os diferentes segmentos sociais e estabelecer uma forma permanente de escuta da sociedade. "A transparência e o diálogo com a sociedade são fundamentais para a nossa missão pública. E essa missão ganha mais relevância agora, numa era em que a informação/desinformação ganham uma velocidade sem precedentes", afirmou o reitor Aluísio Segurado. 

A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) investe em políticas de inclusão, inovação e transferência de conhecimento e no fortalecimento da comunicação com a sociedade. Até 2030, segundo Fernando Coelho, reitor em exercício, está previsto ampliar o número de vagas em diversos cursos, inclusive no período noturno, fortalecer ações que garantam a permanência de alunos, aprimorar a infraestrutura física e o encerrar cursos que não atendam a demandas da sociedade. 

Na Universidade Estadual Paulista (Unesp), a capilaridade e a força do alumini oferece indicadores estratégicos do impacto da universidade, como por exemplo, a contribuição dos alunos para o desenvolvimento regional, disse a reitora Maysa Furlan.  "Alguns levantamentos dão conta, por exemplo, de que 66% dos profissionais de saúde no interior do Estado são egressos da Unesp." 

A Universidade Federal do ABC (UFABC) quer monitorar a trajetória formativa de seus alunos, cotejar os valores investido em pesquisa com a transferência de conhecimento e depósito de patentes, por exemplo, e seguir investindo em projeto de pesquisa, como o Centro de Estudos da Favela (Cefavela), apoiado pela FAPESP. O Centro "pesquisa, formação, transferência de tecnologia e difusão de conhecimento sobre as favelas, e atua em articulação com diversas instituições, movimentos e organizações comprometidas com a agenda territorial das favelas", contou a reitora Paula Homem de Mello.

O Núcleo de Apoio à Indissociabilidade entre Inovação, Pesquisa, Ensino e Extensão (NAIIPEE) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) está apoiando à implantação de uma plataforma de interação com egressos e em iniciativa voltada à elaboração de indicadores confiáveis e métricas de desempenho acadêmico e impacto social, disse a reitora Ana Beatriz de Oliveira. O sistema, anonimizado, utiliza informações da RAISS, do CNPq, Scopus, entre outros, para mapear a trajetória de egressos.

Boa parte das iniciativas elencadas pelos reitores foram incentivadas pelo projeto Indicadores centrados na sociedade para o desempenho de universidades públicas, coordenado por Jacques Marcovitch, ex-reitor da USP, que, apoiado pela Fapesp, tem estimulado, desde 2017, a constituição de escritórios de gestão de dados e a boa governança nas universidades paulistas. O Projeto Métricas - como ficou conhecido - iniciou com as três universidades estaduais e, desde 2014, contou com a adesão também das federais no desenvolvimento de indicadores baseados em métricas de insumos, processos, resultados e de impacto social, científico e ambiental, com foco na qualidade.

Por meio de seminários, workshop e cursos, o Projeto Métricas formou uma comunidade de 688 integrantes, boa parte dela atualmente envolvida com a gestão de dados e de indicadores nas seis universidades públicas paulistas, em instituições de outros estados e também de Angola, Moçambique e Portugal. 

O III Encontro da Comunidade Métricas, além da reunião com reitores, foi um espaço para a troca de experiências e de informações entre as várias instituições. Também participaram do encontro Antonio Gomes de Souza Filho, diretor de Avaliação da Coordenação de Aperfeiçoamento do Pessoal de Nível Superior (Capes), Helena Lage, representando a diretoria-científica da FAPESP, e Thais Maria Ferreira de Souza Vieira, diretora de Esalq-USP, anfitriã do Encontro. 

Thais Vieira foi aluna do 3º Curso Métricas de Desempenho e Comparações Internacionais. "Quando assumi a direção, em 2023, trouxe o aprendizado sobre indicadores para a gestão da Esalq, para o Plano Estratégico e para o projeto acadêmico. Os indicadores nos ajudam a conhecer, definir cenários, fazer escolhas e a tomar decisões", disse. 

Uso responsável da inteligência artificial
O uso responsável de indicadores de desempenho nas universidades tem sido impactado pelo avanço da inteligência artificial no ensino, pesquisa e extensão. Atualmente, todas as universidades públicas de São Paulo já têm iniciativas para a regulamentação do uso de IA. Na USP, a inserção da IA para qualificar atividades de ensino, pesquisa e extensão segue um processo de transformação digital implementado há algum tempo, afirmou Segurado. "A articulação dessa transformação digital exige integrar todas as áreas para superar os desafios de interoperabilidade". A universidade criou em março, o Escritório de Transformação Digital e Inteligência Artificial (ETDIA) para coordenar o uso responsável da IA e de tecnologias digitais na universidade. 

A Unesp também tem a IA como agenda prioritária. "Estamos traçando estratégias de ação que envolvem regulamentação, ética, educação e capacitação para aplicar a IA ao conhecimento institucional", disse a reitora Maysa Furlan. "A universidade tem uma grande quantidade de conteúdo aberto e a aplicação da IA ao conhecimento deve se basear em boas prática e ter limites", completou. 

Na Unicamp, a IA representa "desafios e riscos" que precisam ser gerenciados, de acordo com Coelho. "Fizemos diagnóstico com mecanismos para utilizar essa ferramenta inovadora sem comprometer dados". A universidade criou o Centro de Referência em Tecnologias de Inteligência Artificial (Crefia), vinculado à Diretoria Executiva de Tecnologia da Informação e Comunicação (Detic), para apoiar a articulação institucional, a governança e a adoção responsável de tecnologias de Inteligência Artificial no ambiente universitário.

O uso responsável da IA também mobiliza as universidades federais. A Unifesp reunirá a comunidade acadêmica num congresso sobre o tema em agosto, anunciou a reitora Raiane Assumpção. "A IA é uma ferramenta importante que pode nos ajudar na produção científica e na gestão. Mas, no ensino e aprendizagem, é preciso superar o conflito geracional: alunos no século 21 orientados por professores formados no século 20".  Os desafios da IA para a infraestrutura e governança também estão em pauta na UFSCar. "Entendemos que essa é uma ferramenta que exige formação voltada ao pensamento crítico e à ética", disse a reitora. A UFABC deverá criar um escritório voltado para acompanhar o uso de IA na universidade. "Já constituímos um grupo para formular avaliação no ensino e na pesquisa, com uma perspectiva ética. A IA também será objeto de investigação e ferramenta de apoio à infraestrutura e à tomada de decisões", disse Paula Homem de Melo.